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Proveta e Saúde

Bebês de proveta podem enfrentar maiores riscos de saúde

Desde o nascimento do primeiro bebê de proveta, em 1978, mais de 3 milhões de crianças nasceram com a ajuda da tecnologia reprodutiva. A maioria delas é saudável. Mas, como grupo, têm maior risco de nascer com peso menor, o que se associa no decorrer da vida à obesidade, hipertensão e diabetes tipo 2.

Carmen Sapienza, geneticista da Temple University School of Medicine, na Filadélfia, está estudando dois grupos de crianças – um constituído por concebidas naturalmente e outro por concebidas por meio de tecnologia de reprodução assistida – a fim de identificar suas diferenças epigenéticas (alterações na expressão genética molecular causadas por outros mecanismos de mutações na seqüência do DNA propriamente dito). Ele está particularmente interessado em uma alteração cromossômica chamada metilação do DNA, segundo pesquisa que apresentou em 22 de fevereiro no encontro anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência. “Descobrimos que 5% a 10% dessas alterações cromossômicas eram diferentes em crianças nascidas por meio de reprodução assistida, e isso alterou a expressão de genes próximos”, diz Sapienza. Vários dos genes cuja expressão difere entre os dois grupos têm sido responsáveis por doenças metabólicas crônicas, como obesidade e diabetes tipo 2.

Por termos DNA idêntico em cada uma das nossas células, nossos corpos desenvolvem mecanismos como a metilação do DNA, para controlar quais genes são expressos em certos tipos de célula – processo chamado de impressão genômica. Quando um grupo metilo (átomo de carbono com três átomos de hidrogênio em anexo) se liga a uma molécula de citosina (um dos quatro nucleotídeos que compõem o DNA), passa-se a informação ao mecanismo das células para não transcrever aquele gene “É importante, porque todos os genes do mesmo tipo não podem ser expressos em toda célula”, Sapienza explica. “Metilação do DNA no rim é diferente de metilação do DNA no fígado”, diz ele. Isso é o que faz cada órgão único.

Mas o mecanismo não é perfeito: “Se você olhar para os tumores, eles tendem a ter hipometilação global, mas hipermetilação em alguns genes”, continua Sapienza. “Se você tomar por base a população normal, e pesquisar qual o número de pessoas com um defeito de metilação no gene que codifica insulina como fator de crescimento 2, chegará à cifra de cerca de 5%. Mas, se você for para uma clinica gastrintestinal e selecionar todas os as pessoas com câncer do cólon, essa cifra aumenta para um terço do total.”

Os primeiros indícios de que a reprodução assistida causava alterações na metilação e na expressão de genes surgiram de estudos de clonagem de animais em 2001, disse Sapienza. “Eles perceberam que a fertilização in vitro resultou na síndrome de prole grande [caracterizada por uma placenta grande e disfuncional] e defeitos do coração”, diz ele. “Quando você usa os modelos animais e faz coisas comumente feitas na reprodução assistida, a resposta é sim, isso afeta a metilação do DNA.”

Defeitos de metilação também causam desordens cromossômicas raras: síndrome de Angelman e síndrome de Beckwith-Wiedemann – ambas doenças congênitas complexas que se caracterizam por peso anormal no nascimento. O risco aumenta em até cinco vezes com a reprodução assistida – saltando de 1 em 15 mil-20 mil crianças, para 1 em 4 mil, diz Sapienza.

Ainda não se sabe se a tecnologia reprodutiva ou algum subproduto da infertilidade é o causador dos defeitos de metilação. Mas Sapienza planeja chegar à resposta em estudos futuros. “Uma fração de pessoas que têm filhos utilizando a tecnologia de reprodução assistida foi fértil antes da laqueadura tubária. Você pode comparar essas crianças com os nascidos de pais inférteis para determinar se a fertilidade é a questão. Esse é o modo como vamos tentar fazer isso”, diz. Ele não especula sobre qual é a causa mais provável, mas disse que muitas coisas, como as mutações do gene, podem causar defeitos de metilação e resultar em infertilidade. “A tecnologia de reprodução assistida subverte esses [defeitos]”, diz ele.

Sapienza diz que o próximo passo é repetir o estudo considerando mais genes. O atual estudo analisou cerca de 800, mas ele gostaria de analisar todos os 54 mil. Ele também espera acompanhar essas crianças a longo prazo para determinar se elas têm maiores taxas de obesidade ou diabetes. Para Sapienza, o objetivo não é fazer com que os pais se preocupem, mas sim para tornar as pessoas conscientes de suas predisposições genéticas e incentivá-los a manter a boa saúde.

Fonte: SciAm Brasil

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