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Avatar: Um Olhar Biológico

Um Olhar Biológico no Filme de James Cameron
Heytor Victor

Pessoal, li essa matéria e resolvi postar aqui para todos você que gostam de cinema e de biologia. Espero que gostem!!

Abraços!

Selva luminosa do filme 'Avatar' encanta cientistas

Carol Kaesuk Yoon

Ao assistir a um filme de Hollywood que envolva temas e procedimentos científicos, um cientista costuma esperar sensações que variam da irritação à fúria diante de fatos expostos erroneamente ou processos incorretos. O que o cientista não espera é sentir uma imensa admiração e a vontade de pular da cadeira gritando "isso! É exatamente assim!"

Por isso, é hora de todos os biólogos que ainda não o fizeram deixar o laboratório e correr ao cinema para colocar os óculos 3D e assistir a 'Avatar'. Na verdade, todo mundo que ama os biólogos, quer ser biólogo ou até mesmo odeia os biólogos - e certamente todas as pessoas que rangem os dentes diante dos ecologistas - deveria fazer o mesmo. Porque a história espacial de James Cameron sobre romances e batalhas, alienígenas e armadas, de alguma forma conseguiu o que nenhum filme jamais havia realizado: recriou o cerne da biologia, a admiração escancarada e paralisante de realmente contemplar um mundo vivo.

A verdadeira beleza, porém, está no fato de que não é preciso ser cientista para apreciar a experiência. 'Avatar' está a meio caminho de se tornar a maior bilheteria de todos os tempos. E embora a animação deslumbrante e os efeitos de 3D do filme venham recebendo mais atenção, o que realmente deve ter atraído todas essas pessoas é o deslumbramento que o filme causa, e não simplesmente a magia técnica envolvida no processo.

É claro que já houve muitos filmes que descrevem o entusiasmo dos cientistas durante uma descoberta (basta lembrar de Laura Dern, em 'Jurassic Park', alegremente enfiando a mão em um monte de esterco de dinossauro), e, de 'O Senhor dos Anéis' a 'Jornada nas Estrelas', fauna e flora fantásticas jamais foram escassas nas telas.

Em lugar de causar risadas diante de criaturas estranhas ou medo pela segurança das crianças atacadas por um tiranossauro, Cameron conseguiu fazer com que a audiência visse os organismos que ocupam a densa selva de Pandora da mesma forma que um biólogo os vê. A cada olhar, somos lembrados de organismos que já conhecemos, e ao mesmo tempo nos surpreendemos com o novo, enquanto tentamos enquadrar essas novidades a uma estrutura mental sensata. É estimulante para o cérebro, e essa maravilhosa confusão desperta os pensamentos: "Nossa, parece um cavalo. Mas calma lá: tem seis patas, e é azul; e, opa, aquilo lá parece uma água-viva, mas voa brilhando pelo ar".

As pistas de que "não estamos mais no Kansas", como o filme nos informa logo no começo, podem ser encontradas em todos os aspectos da vida em Pandora. Se existe uma cor que claramente não tem lugar clássico na Terra, e não está associada a muitas criaturas vivas, é o azul brilhante.

E muitas das coisas em Pandora, do ikran, um animal semelhante a um pterodáctilo, ao yerik, uma espécie de cervo, são azuis, muito azuis. Outra coisa que não esperamos ver na maioria das criaturas vivas é luz. Mas em Pandora a luz brilha em toda parte, à noite, incluindo no musgo de um branco brilhante que enfeita e pende dos ramos das árvores, e em arbustos de brilho verde e púrpura.

E, em um detalhe que propicia ainda mais familiaridade, Cameron coloca uma versão dos seres humanos, em Pandora, o povo Na´vi, para o qual ele não economiza truque algum. Eles são azuis, têm pontos bioluminescentes no rosto e exibem mais uma das características excêntricas das criaturas de Pandora: são imensos, com três metros de altura.

Experimentar de forma tão forte essa sensação da semelhança e dessemelhança surpreendente entre coisas vivas é a espécie de experiência que sempre foi prerrogativa dos biólogos - especialmente dos taxonomistas, que passam seus dias catalogando e nomeando as coisas vivas da Terra.

Mas agora, graças a Cameron, o mundo está não apenas passando por essa experiência mas aprendendo a apreciá-la.

O que foi um pouco engraçado para mim foi o fato de ter dedicado boa parte dos últimos seis anos a um livro exatamente sobre isso, sobre o desejo profundo que os seres humanos sentem de realmente ver e compreender a vida, de perceber a ordem entre as coisas vivas, e sobre a alegria que deriva disso. Assim, no final de 'Naming Nature', lançado no ano passado, apelo aos leitores que saiam ao mundo e vejam a vida, encontrando ordem no mundo que vive em torno deles. Posso ter de emendar a nova edição em forma de livro de bolso, para sugerir que talvez a melhor forma de começar seja uma visita a uma sala escura para assistir 'Avatar' e conhecer o deslumbramento.

Peço desculpas se lhes pareço um tanto entusiasmada, mas a experiência que tive ao assistir o filme pela primeira vez (e na versão 2D) me causou profundo choque. Senti como se alguém houvesse filmado meus sonhos favoritos, em minhas melhores noites de sono, aqueles nos quais passeio e brinco em paisagens familiares mas ainda assim estranhas, acompanhada por criaturas desconhecidas, nadando entre os dinossauros, caminhando e observando espécies inteiramente novas de pinguins, andando de trenó entre gigantescas tartarugas. A semelhança está menos nos detalhes do filme, percebi, do que no mesmo sentimento de júbilo, de deslumbramento diante da vida.

Talvez essa forma de poderosa alegria seja agora a única maneira de conjurar uma visão da ordem na vida. Muitos biólogos de minha geração (completo 47 anos este mês) encontraram inspiração para suas carreiras científicas na série Time-Life de livros sobre animais, hoje em dia bem sem graça, ou no programa de televisão 'Wild Kingdom', na época uma experiência televisiva bastante crua. ("Agora, meu assistente Jim vai tentar sedar a onça".) Mas talvez essas experiências já não sejam o bastante.

Talvez o que seja necessário agora, para atingir um mundo tão acomodado, se assemelhe mais a um êxtase onírico; estamos falando, afinal, de um público que já assistiu aos documentários de David Attenborough sobre a natureza, que passou centenas de vezes, entediado, pelos canais do Animal Planet, sem nem mesmo prestar atenção aos animais. Talvez seja necessário um lagarto que brilha como o fogo e voa como um helicóptero, e uma tropa de lêmures azul brilhante para nos despertar.

Talvez 'Avatar' seja aquilo de que necessitamos para realmente insuflar vida aos nossos taxonomistas interiores, e nos levar a verdadeiramente ver.

E despertar e ver é exatamente o tema de 'Avatar', como seus personagens nos informam repetidamente, por exemplo na cena em que o herói, o fuzileiro naval Jake Sully, interpretado por Sam Worthington, se esforça por compreender a paixão de sua amada pela vida em Pandora. "Tente ver a floresta pelos olhos dela", recomenda a Dra. Grace Augustine, diretora do projeto Avatar, interpretada por Sigourney Weaver.

E eis outro motivo para que cientistas amem o filme. Quem não estava cansado de ver cientistas retratados sempre ou como maníacos em busca de verbas ou como causadores ingênuos de perigo para a humanidade, gritando "tenho certeza de que essas criaturas são amistosas!" pouco antes de serem devorados? Nos filmes, os cientistas muitas vezes são retratados como desumanos em certa medida, e ao se humanizarem, ao longo de uma história, em geral é porque se tornam menos cientistas.

Em 'Avatar', Augustine começa, em lugar disso, como uma cientista comum, abrasiva e obcecada pelo seu projeto. Mas a audiência começa a gostar cada vez mais dela não porque ela se envolva menos com a vida em Pandora, mas porque nós nos envolvemos mais.

"Você entendeu?", ela pergunta, depois de explicar a beleza e a importância da vida em Pandora ao seu inimigo na grande empresa. E embora ele não o faça, àquela altura, nós todos compreendemos.

E - não leiam se não quiserem estragar uma surpresa! - é por isso que ela, perto de morrer, chega ao mais sagrado lugar de Pandora, o ponto mais importante da lua biologicamente, e rimos com simpatia e respeito quando seu primeiro pensamento é o de que precisa obter amostras. Não há distinção entre o deslumbramento que ela sente, seu amor pelo mundo vivo e a ciência que ela pratica. Nós compreendemos.
Fonte: Terra Ciência

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