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Pra quê Talidomida?

Pesquisadores identificam proteína alvo da talidomida

Meio século atrás, em 46 países, milhares de mulheres grávidas tomaram medicamento para enjôo, que viria a se revelar grande causador de graves más formações no desenvolvimento fetal. Em todo o mundo, cerca de 10 mil crianças foram afetadas pelo medicamento (antes de interrupção do uso em 1961, após quatro anos no mercado). Apelidadas de “bebês da talidomida”, nasceram com defeitos múltiplos, incluindo a característica dos membros superiores serem curtos (condição conhecida como focomelia, do grego “phoke”-foca e “melos”-membros).

Recentemente, a talidomida retornou. Na década de 1990 a Food and Drug Administration aprovou sua utilização no tratamento contra o mieloma múltiplo (câncer nas células do plasma) e contra as complicações de lepra. Potente anti-inflamatório e antiangiogênico (formador de vasos sanguíneos), a droga apresenta resultados terapêuticos efetivos, apesar dos efeitos colaterais desagradáveis. (Obviamente, não é recomendado para mulheres grávidas.) Hoje, os testes com talidomida ocorrem com mais de 30 doenças, incluindo artrite, câncer de mama e esclerose lateral amiotrófica, de acordo com a Adis R&D Insight (um banco de dados on-line sobre a evolução desse medicamento). Detalhes sobre o funcionamento da droga, porém, ainda permanecem desconhecidos.

Novo estudo publicado no dia 12 de março na revista Science identificou o alvo primário de teratogenicidade da talidomida (potencial causador de má formação fetal), uma proteína chamada cereblon. Usando peixes-zebra e embriões de galinha, Takumi Ito e seus colegas do Instituto de Tecnologia de Tóquio mostraram que a ligação entre talidomida e cereblon causou má formação na nadadeira peitoral do peixe-zebra e a ausência completa dos membros anteriores nos pintos. Os pesquisadores concluíram que a talidomida exerce esses efeitos devido à inibição de cereblon, pois indução desta proteína impediu que ocorressem más formações. A função natural dessa proteína ainda permanece desconhecida, mas as mutações no gene que codifica estão relacionadas ao retardo mental leve.

Estudos anteriores sugerem que efeitos terapêuticos da talidomida na inflamação, na formação de vasos sangüíneos e nas células de estresse possam ser parcialmente responsáveis por sua teratogenicidade, ou seja, eliminar os seus efeitos secundários tóxicos também pode reduzir sua eficácia. Porém, pouco foi relatado sobre uso direto de talidomida em alvos moleculares. Ito e seus colegas esperam que a identificação de cereblon como um alvo para a teratogenicidade da talidomida levará a detecção rápida de semelhantes, as alternativas mais seguras. “Agora a talidomida é usada para o tratamento do mieloma múltiplo e hanseníase, a identificação do seu alvo direto pode permitir que a concepção racional de derivados da talidomida seja mais eficaz sem atividade teratogênica”, relatam.

Um substituto seguro para a talidomida seria bem recebido, embora a FDA tenha aprovado o uso limitado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda seu uso, citando preocupações sobre a fiscalização ineficaz e uso indevido do medicamento. “O número de ‘bebês de talidomida’ continuará a crescer a cada ano, refletindo a insuficiência de regulamentação e uso difundido sob supervisão inadequada”, afirma a organização do website. Em relatório anterior, a WHO Global Leprosy, equipe do programa coordenado por Vijaykumar Pannikar, alertou: “Não é demais enfatizar que qualquer potencial benéfico com talidomida deve ser equilibrado com a toxicidade conhecida e as restrições de acompanhamento jurídico e ético sobre seu uso.”

Fonte: Scientific American Brasil

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