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Campanha contra o cigarro exagera?
Para alguns cientistas, o lobby antitabagista de hoje exagera no tom dos alertas, o que é tão enganoso quanto mascarar os riscos do fumo, algo que a indústria do tabaco fez durante décadas

Imagine a cena: você é um não- e entra num bar em que os frequentadores soltam constantes baforadas. Aí, alguém bate no seu ombro e diz: "Meia hora inalando por tabela essa fumaça deixa as suas chances de sofrer um ataque cardíaco iguaizinhas às de um fumante inveterado". Rebobine: a cena é a mesma, só muda o discurso da pessoa que dá o tapinha no ombro. "Na verdade, essa exposição resulta em algum grau de prejuízo para a circulação sanguínea, mas não é sabido o quanto esse efeito dura e quais são suas consequências a longo prazo." O que levar mais em consideração, o alarme terrorista ou o aviso sereno?

Apesar de diferentes no teor, esses alertas têm a mesma fonte: um estudo publicado em 2001 no jornal da Associação Médica Americana. A primeira versão é propagada por 65 organizações antitabagistas de diversos países, segundo levantamento do médico epidemiologista Michael Siegel, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, EUA. A segunda é fruto de uma leitura literal dos resultados da pesquisa. Essa diferença de interpretação motiva a pergunta: o movimento antitabagista está passando dos limites?
Enquanto governos vão fechando o cerco ao hábito que é, inquestionavelmente, a principal causa de morte evitável no mundo, cientistas como Siegel estão preocupados com a maneira como grupos antitabagistas divulgam informações, principalmente para o fumante passivo, sobre o qual há menos pesquisas. É comprovado que quem respira fumaça também tem alguma nicotina no sangue. "Mas o grau em que isso passa a ser nocivo ainda está sendo estudado", diz a psiquiatra Ana Luiza Camargo, do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Para Siegel, a alegação de que respirar fumaça por 30 minutos pode fazer um coração saudável entrar em colapso é ridícula. Por defender opiniões como essa, o médico coleciona desafetos. Mas há um cientista de peso que concorda, pelo menos em parte, com ele. O cardiologista Stanton Glantz, da Universidade da Califórnia e um dos nomes mais respeitados na guerra contra o cigarro , liderou estudos que mostram danos do fumo passivo aos vasos e aumento de chance de ataque cardíaco em quem já tem um alto risco. Mas afirma que nem todo mundo que tem um breve contato com a fumaça está na iminência de um enfarte.

Com ressalvas, outros especialistas fazem coro. "É exagerado mesmo dizer isso", afirma Humberto Freitas, cardiologista do Hospital São Camilo, em São Paulo, referindo-se à interpretação distorcida do estudo de 2001. E defende o uso de exemplos cientificamente embasados: "Já está mais do que provado que crianças que convivem com pais fumantes estão mais propensas a desenvolverem doenças pulmonares". Um estudo abrangente da Organização Mundial da Saúde - envolvendo 700 milhões de crianças que vivem com fumantes em casa (cerca de metade da população infantil global) - mostrou que elas têm mais pneumonia, bronquite, asma, infecções do ouvido médio e maior probabilidade de desenvolvimento de doença cardiovascular na idade adulta.

Para o pneumologista Daniel Deheinzelin, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, questionar tecnicalidades dos estudos é picuinha. "Não acho que o lobby antitabagista esteja indo longe demais. Não cabe discutir metodologia, a informação relevante é que o cigarro mata". O médico João Paulo Lotufo, responsável pelo Projeto Antitabágico do Hospital Universitário da USP, afirma ainda que as campanhas contra o cigarro feitas no Brasil utilizam as informações científicas de maneira correta, sem distorções como aquela do início desta reportagem. "A postura antitabagista tem que prevalecer", diz.
Fonte: Galileu

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