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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Diminuindo Riscos

Gel pode reduzir contaminação por HIV em 54%, diz teste

Um gel de aplicação vaginal contendo uma concentração de 1% do remédio antirretroviral tenofovir pode reduzir o risco de uma mulher contrair o vírus causador da aids, o HIV, em até 54%, de acordo com estudo que será publicado na edição desta semana da revista Science e que foi divulgado nesta tarde.
Realizado com 889 mulheres sul-africanas sexualmente ativas de idade entre 18 e 40 anos, o gel mostrou uma eficácia média de 39% em todo o grupo estudado, chegando a 54% entre as mulheres que seguiram as orientações de aplicação ao pé da letra. Num benefício colateral inesperado, o gel também reduziu em mais de 50% a incidência de herpes.
Para a realização do experimento, o conjunto de mulheres foi dividido em dois grupos, sendo que 445 receberam o gel de tenofovir e 444, um placebo - um gel idêntico ao medicamento, mas sem ingrediente ativo. Nem as mulheres, nem os pesquisadores, sabiam quem estaria recebendo o quê. A instrução era que uma dose fosse aplicada na vagina menos de12 horas antes da relação sexual e outra, no máximo 12 horas depois.
As voluntárias foram acompanhadas por 30 meses, período em que receberam visitas mensais, quando eram testadas para o vírus da aids e orientadas sobre o uso de preservativo e a prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis. Ao final do período, 98 mulheres haviam se tornado HIV positivas: trinta e oito do grupo que havia usado o gel com antirretroviral e 60 das que haviam usado o placebo.
Os principais autores do estudo, o casal Quarraisha Abdool Karim e Salim S. Abdool Karim, advertem que mais estudos serão necessários para confirmar os resultados obtidos. O gel, se tiver a eficácia confirmada, não deve chegar ao mercado antes de dois anos. Segundo cientistas, é preciso confirmar o resultado deste estudo, expandir suas conclusões e entender por que a proteção oferecida não foi maior que a verificada.
Os pesquisadores reconhecem que poderão enfrentar críticas quanto à ética de reproduzir o experimento com placebo, já que isso envolverá negar a parte das voluntárias - todas mulheres em risco de contrair aids - o acesso a um produto que poderia ser capaz de protegê-las, mas ponderam que não é incomum que um resultado positivo inicial acabe desmentido quando se tenta reproduzi-lo.
"Espero que esse não seja o caso aqui", disse Salim Abdool Karim, em entrevista coletiva.
"Eu gostaria de ver estudos confirmatórios com placebo, gostaria de ver que estes resultados são replicáveis", disse ele. "O desafio é ver se a necessidade de replicação supera a necessidade real de deixar sito disponível para as mulheres que estão sendo infectadas. São desafios em que nós teremos de pensar, bem como o comitê de ética".
De acordo com os autores, todas as participantes do experimento foram instruídas sobre a natureza do estudo e o que significa um controle com placebo. O artigo científico que apresenta os resultados destaca a importância de dar às mulheres, que podem se ver "incapazes de negociar o uso de preservativos ou a monogamia mútua", um meio de controlar o contágio da aids.
Estatisticamente, a eficácia do gel parece cair com o tempo: o risco de infecção reduziu-se em 50% nos primeiros 12 meses do estudo, mas voltou a subir depois. Os cientistas atribuem isso a um relaxamento na aderência das voluntárias. "Nós dizíamos repetidamente a essas mulheres que não sabíamos se o gel iria funcionar, e nem se ele seria seguro", lembrou Salim Abdool Karim.
Em termos de segurança, o gel não causou efeitos negativos. Apenas casos de diarreia leve pareceram se tornar mais comuns entre as mulheres que usaram o produto com o ingrediente ativo.
Das participantes do estudo, 68% contaram aos parceiros do sexo masculino o que estavam fazendo, de acordo com questionário aplicado pelos pesquisadores. Dos homens informados, 6% não gostaram da ideia, mas nenhuma mulher abandonou o experiemento por causa disso.
Este é o primeiro gel antimicrobiano a se mostrar eficaz contra o HIV. Fórmulas diferentes já haviam sido testadas anteriormente, sem sucesso. Os autores do trabalho atribuem o resultado ao fato de este ser o primeiro gel baseado num antirretroviral, o mesmo tipo de droga que compõe os "coquetéis" usados para controlar o vírus em pessoas infectadas.
Uma simulação matemática citada pelos autores do estudo indica que, se os níveis de eficácia do gel de tenofovir se confirmarem, apenas na África do Sul seu uso poderia salvar pelo menos 820.000 vidas ao longo de 20 anos. O estudo foi realizado numa parceira entre África do Sul e Estados Unidos, envolvendo pesquisadores dos dois países.
Fonte: Estadão

Colando Neurônios

Pesquisadores da Unicamp usam 'cola' para restabelecer conexão entre neurônios

A realização de reparos eficientes em lesões do sistema nervoso é um desafio para a medicina. Compreender o rearranjo dos circuitos neurais provocado por essas lesões pode ser um passo fundamental para otimizar a sobrevivência e a capacidade regenerativa de neurônios motores e restabelecer os movimentos de pacientes.
A partir de investigações sobre esses mecanismos de rearranjo dos circuitos nervosos, um grupo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está desenvolvendo um modelo inovador que associa terapia celular ao reimplante das raízes nervosas.
Para restabelecer a conexão entre o sistema nervoso periférico e o central, os pesquisadores utilizam células-tronco mononucleares de medula óssea e uma “cola” desenvolvida a partir do veneno de serpentes.
O projeto é coordenado por Alexandre Leite Rodrigues de Oliveira, professor do Departamento de Anatomia, Biologia Celular e Fisiologia e Biofísica, e conta com apoio da Fapesp por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa - Regular.
Oliveira, que coordena o Laboratório de Regeneração Nervosa da Unicamp, apresentou na última segunda-feira, durante o 15º Congresso da Sociedade Brasileira de Biologia Celular, em São Paulo, modelos utilizados por sua equipe para investigar os mecanismos de regeneração do sistema nervoso central e periférico.
Este ano, o grupo já publicou artigos sobre o tema nas revistas científicas Neuropathology and Applied Neurobiology, Journal of Comparative Neurology e Journal of Neuroinflammation.
“Após uma lesão no sistema nervoso - periférico ou central -, ocorre um rearranjo considerável dos circuitos neurais e das sinapses. Entender esse rearranjo é importante para determinar a sobrevivência neural e a capacidade regenerativa posterior”, disse Oliveira à Agência Fapesp.
Para estudar os mecanismos de regeneração, os cientistas utilizam técnicas que unem microscopia eletrônica de transmissão, imuno-histoquímica, hibridação in situ e cultura de células gliais e de neurônios medulares.
“Procuramos associar a terapia celular ao reimplante das raízes nervosas. Para isso, temos usado células-tronco mesenquimais e mononucleares no local da lesão ou nas raízes reimplantadas. A ideia não é repor neurônios, mas estimular troficamente essas células e evitar a perda neural, de modo a conseguir otimizar o processo regenerativo”, explicou Oliveira.
O projeto mais recente do grupo envolve o uso de um selante de fibrina - uma proteína envolvida com a coagulação sanguínea -, produzido a partir de uma fração do veneno de jararaca pelo Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.
“Os axônios dos neurônios motores saem da medula espinhal e entram na raiz nervosa, dirigindo-se aos nervos. O nosso modelo emprega essa ‘cola’ biorreabsorvível para reimplantar as raízes nervosas na superfície da medula, onde o sistema nervoso periférico se conecta ao sistema nervoso central. Associamos essa adesão às células-tronco, que produzem fatores neurotróficos - isto é, moléculas proteicas capazes de induzir o crescimento e a migração de expansões das células neurais”, afirmou Oliveira.
Quando as raízes motoras são arrancadas, cerca de 80% dos neurônios motores morrem duas semanas após a lesão. Mas os motoneurônios que sobrevivem têm potencial regenerativo após o reimplante de raízes nervosas.
“Porém, na maioria das vezes, o reimplante das raízes não é suficiente para se obter um retorno da função motora, porque a lesão causa uma perda neuronal grande demais. Por isso, é preciso desenvolver estratégias para diminuir a morte neuronal após a lesão. Achamos que o uso do selante de fibrina pode auxiliar nesse processo”, indicou.
Segundo Oliveira, quando há uma lesão periférica - comum em acidentes de trabalho, por exemplo -, com transecção ou esmagamento de nervos, ocorre uma resposta retrógrada, ou seja, uma reorganização sináptica visível na medula espinhal, onde se encontram os neurônios.
“O interessante é que, quando a lesão é periférica, o neurônico sinaliza de alguma forma para a glia - o conjunto de células do sistema nervoso central que dão suporte aos neurônios -, que se torna reativa. Essa reatividade está envolvida no rearranjo sináptico por meio de mecanismos ainda pouco conhecidos. Nosso objetivo é compreender e otimizar esse processo de rearranjo sináptico para, futuramente, criar estratégias capazes de melhorar a qualidade da regeneração neuronal”, afirmou.
Rearranjo sináptico
No laboratório da Unicamp, os cientistas induzem em ratos e camundongos doenças como a encefalomielite autoimune experimental - um modelo para estudar a esclerose múltipla. Após a indução de uma forma aguda da doença, os animais apresentam todos os sinais clínicos, tornando-se tetraplégicos de 15 a 17 dias após a indução.
“Por outro lado, eles se recuperam da tetraplegia muito rapidamente, entre 72 e 96 horas. O rearranjo sináptico induzido pela inflamação é tão grande que paralisa completamente a funcionalidade tanto sensitiva como motora, mas de forma transitória”, disse Oliveira.
No entanto, a esclerose múltipla destrói a bainha de mielina, uma substância que isola as terminações dos nervos e garante o funcionamento dos axônios. Segundo Oliveira, porém, essa bainha se recupera em surtos temporários: em alguns momentos há desmielinização; em outros, a resposta imune fica menos ativa, permitindo que a bainha de mielina se recomponha.
“O paradoxal é que, mesmo que a remielinização não tenha se completado, o animal volta a andar normalmente. Nossa hipótese é que o processo autoimune causa lesões cuja repercussão no sistema nervoso central é similar àquela que ocorre após uma injúria axonal. Transitoriamente, os neurônios param de funcionar. Quando a inflamação cede, as sinapses retornam muito rapidamente. No modelo animal, em algumas horas a função é retomada e os sinais clínicos vão desaparecendo”, disse.
Além do modelo da esclerose múltipla, os cientistas trabalham também com um modelo de lesão periférica dos nervos e na superfície da medula espinhal.
“Quanto mais perto da medula ocorre a lesão, mais grave é em termos de morte neuronal. Todas são graves, mas aquela que ocorre perto da medula causa perda neuronal, e aí não há perspectiva de recuperação. Mesmo com as vias íntegras, o neurônio que conecta o sistema central com o músculo morre e nunca mais haverá recuperação”, explicou o professor da Unicamp.
“Tanto no animal como no homem, ocorre uma perda grande de neurônios, mas, da pequena porcentagem que resta, apenas cerca de 5% consegue se regenerar. No homem, entretanto, há uma demora de mais de dois anos para que se recupere alguma mobilidade. No rato, a mobilidade é recuperada em três ou quatro meses”, afirmou Oliveira.
“Uma vez que isso foi descoberto, começou-se a tentar reimplantar as raízes, desenvolvendo estratégias cirúrgicas e tratamentos com drogas que evitem a morte neuronal nesse período em que há desconexão. Essa parece ser a saída mais promissora para evitar a perda neuronal e otimizar a regeneração”, destacou o pesquisador.


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